Sábado, 24.04.10

Foi numa tarde escura de chuva. O sol não passava pelas nuvens espessas e a dimensão dos prédios ensombrava ainda mais o dia. O som dos automóveis enchia o engarrafamento das ruas, o cheiro desagradável dos escapes não se dissipava com a humidade. O volume de pessoas na rua era aumentado com os guarda-chuvas e sombrinhas que encalhavam uns nos outros, e não passam por todos os sítios: portas e paragens de autocarros, entradas de metro, passeios de ruas estreitas, esquinas apertadas com lampiões…

 

As mãos não chegavam para a sombrinha e a mala de viagem. A sacola traçada caía constantemente dos meus ombros estreitos. Sempre que a tinha de amanhar, tinha também de pousar a mala de viagem A mão da sombrinha fazia o gesto e eu apanhava mais chuva. Estava encharcada quando desci as escadas do metro.

 

Assim que me soltei do temporal fechei a sombrinha e pousei a mala de viagem. Amanhei mais uma vez a sacola, e respirei fundo para descansar. Àquela hora esperava-me um turbilhão de gente no metro, aumentado pela chuva. De pessoas que seguem numa carruagem cheia mas fingem que ela vai vazia. Que ouve música nos auscultadores como se não houvesse barulho, que lêem como se não houvesse balanços. E que não olham nos olhos umas das outras, nem pedem licença nem desculpa.

 

Que não olham nos olhos… Tinha sido de tudo o que mais me espantava no quotidiano de Lisboa. Não era o trânsito, nem o cosmopolitismo, nem o urbanismo, nem o multiculturalismo. Não era a variedade de artes, a porção de pobreza nem a disparidade de pessoas. Era a falta do olhar no outro.

 

Observei em meu redor, curiosa como noutras vezes. Um senhor de idade sacudiu sem vigor o seu guarda-chuva. Uma jovem executiva passou a correr nos saltos e encalhou no senhor: não olhou para ele e não lhe pediu desculpa. Os revisores conversam sobre futebol como se estivessem no café, descontraídos, sem reparar num miúdo que sozinho, mas decidido, passou o passe e abriu a cancela. Aliás, ninguém pareceu estranhar a criança de olhos escuros como todas as da cidade. Um mendigo de cabeça baixa estendeu a mão. As pessoas passavam com indiferença por ele. Não se compadeciam do seu aspecto sujo, das roupas velhas e desagasalhadas. Poucos lhe deixavam esmola.

 

Tenho conhecimento de que esta indiferença é apenas um escudo contra o mundo exterior, e que eu própria também deveria de ter criado um. Estas situações de contemplação e de complacência não me ajudaram a adaptar a Lisboa. A sacola caiu outra vez do ombro. Não demorava muito que alguém se aproveitasse da facilidade e a levasse: e lá se ia o telemóvel, o bilhete do autocarro, os documentos. As moedas eram poucas, mas podiam ajudar o mendigo. Aproximei-me dele e deixo-as cair no copo. Reparo então que tem uma guitarra perto dele. Continua com a cabeça baixa, mas eu digo-lhe:

 

-Está um dia tão feio, que se tocasse talvez alegrasse as pessoas.

 

Então ele levantou os olhos, olhou para mim e o meu coração começou a acelerar. Tive um turbilhão de sentimentos: revolta, injustiça, temor, cólera, confusão, tristeza. Era um jovem, como eu.

 

Ali.

 

Os seus olhos continuavam fixados nos meus, verdes e profundos, a sua face suja com traços límpidos, o seu cabelo desgrenhado e baço, de um ruivo selvagem que se estava a apoderar da minha vontade. Recuei dois passos. A indiferença ter-me-ia salvo. Eu teria continuado ignorante e feliz sem saber que aquele rapaz, jovem e belo, que poderia ser meu colega, que poderia ser meu amigo, que poderia ser meu namorado, estava ali.

 

Ali. A mendigar.

 

Ele pegou na guitarra e começou a tocar. Apesar de um pouco desafinado, o som ecoou como um cântico numa igreja. Recuei mais dois passos. Sentia um nó na garganta, as lágrimas presas nos olhos.

 

Ali. Estava um rapaz a mendigar, cuja música me tocava como as gotas de chuva. Entranhava-se desagradavelmente no meu corpo. A beleza chocava: porque a sua situação era tudo menos bela.

 

O miúdo de há pouco apareceu, por detrás da cancela, a querer ver o que ouvia. O senhor do guarda-chuva encostou-se para apreciar. Uma senhora muito bem arranjada desceu, nesse momento, as escadas ofegante, e logo parou quando viu aquele espectáculo no átrio.

 

Ele parou então aquela música divina e mudou de registo. Agora mais alegre e popular, a música agiu com nova magia nas pessoas que ali estavam. Em vez de paradas a observar, começaram-se a convidar umas às outras para dançar. E a entrada no metro transformou-se num salão de baile.

 

Eu estava cada vez mais espantada. O modo como as pessoas estavam a reagir não se enquadrava em nada do que eu já tinha visto até então. A música dele parecia agir como magia nas pessoas. Recuei de novo. Então ele falou-me:

 

- Às vezes as pessoas olham para os outros.

 

Parecia que tinha adivinhado o meu pensamento. Assustada fugi. Deixei-o para trás, abandonei o átrio transformado em salão de baile, passei à pressa o passe na cancela do metro, desci as escadas em atropelo. A composição estava a chegar nesse momento. Entrei e sentei-me, e o meu coração só sossegou quando o comboio começou a andar.

 

Eu tinha assistido a qualquer coisa de anormal, e apesar de assustada e de achar tudo aquilo abominável, no fundo senti que não tinha sido uma acção má. Havia qualquer coisa de alegria e amor em tudo aquilo.


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Olinda Gil às 22:00 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

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